sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A REDE - 7-3-2009

"Este foi um artigo escrito em Março do Ano passado. Passou um ano e poder-se-á dizer que pouco mudou. Há que fazer selecções de Futebol Feminino e a solução passa sempre pelo que está mais à mão: O FUTSAL. Existem indícios por parte da FPF em querer apostar no Futebol Feminino. A forma é que não parece ser a mais correcta e adequada à realidade do desporto feminino no nosso país. O projecto "O JOGO DAS RAPARIGAS" irá ajudar a descobrir novos caminhos em conjunto para as duas modalidades. Espero daqui a cinco anos recolher novas estatísticas e verificar a existência de muito mais atletas nas duas modalidades e competições ajustadas ao seu desenvolvimento. Entretanto as jogadoras do CRCQL praticam FUTSAL durante a época. No final da mesma podem-se divertir a jogar Futebol de 7, Futebol de 11, Futebol de Praia, Andebol, Basquetebol, enfim tudo o que seja saudável e as divirta!"

Fernanda Piçarra


Nas vésperas de mais um dia Internacional da Mulher, sinto-me na obrigação de escrever, porque muito poucos o fazem, sobre a realidade do Futsal Feminino em Portugal.
Porquê o título da Rede? Porque, hoje em dia na nossa sociedade tudo se passa em volta das redes, umas maiores, outras mais pequenas, mas todas elas redes de interesses.

A mensagem que eu gostava de passar é de que é tempo de formar a nossa rede e de lutar pelo Futsal em Geral e pelo Feminino em especial. Se não o fizermos, vamos lá chegar, não sei é quanto tempo durará!



A REDE GLOBAL DE INTERESSES

Temos uma Federação que tem como principal interesse a Selecção A de Futebol Masculino. Isto, porque depende financeiramente do retorno que ela proporciona. Vamos pedir a Deus que a Selecção se apure para o Mundial, pois, se tal não acontecer, tempos ainda mais difíceis se avizinham. Tal como o nosso Governo Depende das Politicas Comunitárias e dos Fundos que vêm da União Europeia, a FPF depende dos modelos de desenvolvimento da(s) modalidade(s) preconizadas pela UEFA e pela FIFA. Finalmente chegou-se à conclusão que uma das formas de desenvolvimento do Futebol passa pela captação das mulheres quer como consumidoras, quer como praticantes. Esta atitude reactiva por parte da FPF tem custos que agora e, possivelmente no Futuro, serão imputados ao Futsal Feminino.



A necessidade de ter selecções de Sub19 e Sub17 de Futebol de 11 Feminino para participar nas Competições organizadas pela UEFA, pôs a nu a falta de resposta e organização, que a FPF tem para promover uma modalidade. Ao contrário de outras Federações, de outras Modalidades, a FPF nunca precisou de lutar muito para ter praticantes. No que respeita ao sexo Feminino as coisas mudam de figura. A FPF, se quer ter mais praticantes de Futebol Feminino terá de promover várias políticas de uma forma estruturante e isso, na minha opinião, terá obrigatoriamente de passar pelo desporto escolar e pelas autarquias, tal como já fazem outras modalidades.

Nesta altura interrogar-se-ão, onde entra o Futsal aqui? Entra, porque olhando para os números, tal como eu o fiz hoje, a FPF arranjou uma solução conjuntural:

- CONVOCAR AS ATLETAS DO FUTSAL PARA AS SELECÇÕES DISTRITAIS E NACIONAIS!

Como são atletas da mesma Federação, o problema está resolvido e os argumentos são alguns:
- As atletas vão para o Futsal porque não têm possibilidade de praticar Futebol de 11;
- Como não existem Selecções Nacionais de Futsal e Competições Internacionais, as atletas têm uma boa oportunidade de se valorizarem e continuar a prática do Futsal.
Tudo isto seria razoável, se os Clubes de Futsal e, os seus responsáveis, sentissem que em todo este processo existe transparência e, que a FPF e as Associações, em colaboração com os Clubes, estariam a resolver um problema conjuntural, mas que o futuro das duas modalidades no Feminino estaria a ser precavido.
Na prática o que assistimos é a uma reestruturação dos Quadros Competitivos do Futebol de 11 Feminino, abrindo a segunda divisão nacional a todos os Clubes que se queiram iniciar na modalidade. Quem sou eu para refutar este modelo? Mas, não há duvida, que me suscita algumas interrogações, sobretudo do ponto de vista financeiro e logístico, conhecendo eu bem a realidade e a forma como o desporto feminino é encarado nos clubes. No entanto, assiste-se a alguma aproximação quanto ao modelo competitivo de outras Federações Desportivas.

Isto, enquanto no Futsal continuam na gaveta algumas propostas de reformulação dos Quadros competitivos. A Taça Nacional Sénior Feminina tem um formato competitivo completamente desactualizado, da Taça Nacional Feminina Júnior nem se fala ou quer ouvir falar e a Selecção Nacional não tem cabimento.
As principais Associações do País parecem não estar muito empenhadas em alterar o que quer que seja, será algum conflito de interesses que ponha em causa algo importante? E então o interesse dos Clubes Filiados? E se os dirigentes, treinadores e jogadoras se fartarem? Acaba a galinha dos ovos de ouro? E depois quando a FIFA e a UEFA acordarem para o FUTSAL, vão começar quase tudo do zero e fazer tudo à pressa e em cima do joelho como acontece hoje no Futebol de Onze feminino? Será que já pensaram que, sem muito trabalho, têm mais do que outras modalidades se esforçam por ter?

Vejamos por exemplo o caso do Andebol Feminino.

1) Quadros Competitivos Nacionais (Masculino e Feminino):

2) Número de Atletas Femininos Época 2006/2007
Comparando estes números com os do Futsal Feminino:

FONTE: PORTAL FPF 6-3-2009

Temos então que o Futsal Feminino, tem uma base de formação reduzida mas, por outro lado, as jogadoras têm a tendência para continuar a praticar a modalidade até mais tarde, sendo por isso a modalidade colectiva com mais jogadoras no escalão sénior.

Ter quadros competitivos ajustados à evolução da modalidade, é algo a que temos direito e pelo qual todos devemos lutar, isto porque as entidades que são responsáveis por o fazer, não estão a cumprir a sua função e, não o fazendo, estão a obstar ao seu desenvolvimento. Agora, não temos moral para o fazer, se tivermos Clubes e treinadores a indicar atletas para as Selecções de Futebol de 11, talvez incluídos numa das redes de interesses que falei no início. Está na altura de nos deixarmos de hipocrisias. O Futsal precisa de união para chegar mais longe, e não de meros interesses individuais, que apenas valorizam o ego mas não nos levam a lado nenhum.

Dedicado a todos os que sonham e lutam por um Futsal Melhor!

Fernanda Piçarra
Treinadora de Futsal Feminino
7-3-2009

2 comentários:

Estevao disse...

Excelente compilação de dados e informações da realidade que expoe "alguma" falta de competência de dirigentes-museus que impedem que o trabalho e vontade de atletas e técnicos dedicados seja valorizado.
Escasseiam soluçoes...
Parabens pelo blog.
Estevao Cordovil

Lombita disse...

Obrigado, este artigo não tinha a intenção de Apresentar soluções. As soluções foram apresentadas à AFL, há dois anos atrás, num documento que não teve qualquer seguimento.
O objectivo agora, era alertar para a situação e, posso dizer que o feedback tem sido positivo. A ideia é fazer uma reúnião com clubes de todo o País!

Fernanda Piçarra